Fraseologia e Mixagem - 01

July 10, 2016

Princípios de fraseologia musical aplicados á condução de volume na mixagem.

 

Desta vez vamos falar sobre como pensar no lado musical de uma ferramenta básica de mixagem: a condução de volumes. Existem alguns princípios simples que guiam essa prática, baseados no conceito de dinâmica musical, e outros baseados na fraseologia. E também alguns equívocos, que costumam vir do hábito de colocar o entendimento do equipamento à frente do entendimento do discurso musical.

Quando o músico toca, ele lida com duas dificuldades: explicitar o discurso musical de forma a valorizar a emoção que ele busca transmitir, e administrar as dificuldades técnicas do instrumento. Esses desafios simultâneos fazem com que às vezes alguns sons não sejam tocados com a intensidade ou a intenção que o músico imaginava, principalmente em trechos de grande dificuldade técnica. Esses “pequenos deslizes”, digamos assim, não diminuem o talento do músico executante, nem desvalorizam a ideia musical que ele propõe, pois em uma performance  nem sempre é possível ter controle absoluto de todos os detalhes da execução. Na forma como entendo, o que faz a grande diferença na interpretação de um grande músico é a sua habilidade de construir um discurso musical coerente, o que não é necessariamente prejudicado por pequenas falhas de execução.

 

Essas dificuldades técnicas não impedem a construção de uma ideia musical, mas elas distraem o ouvinte, por se destacarem em pontos que não deveriam ser o foco principal da atenção, e que terminam sendo, por causa desse “desajuste”. Ajustar essas notas ou trechos durante a mixagem também não desmerece o trabalho do músico, pelo contrário, ajuda a deixar mais clara a intenção de sua execução. Mas para isso, é necessário que o engenheiro de mixagem entenda e se afine com o discurso musical proposto, daí a importância dos conceitos que discutiremos abaixo.

O equívoco mais comum é tentar usar compressores para corrigir oscilações de intensidade. Para corrigir esse tipo de oscilação, a compressão teria que atuar de forma muito exagerada, eliminando também as variações de volume que o músico criou de forma intencional.

 

Vejo o compressor como uma ferramenta de timbragem, por modelar o transiente e o envelope de intensidade dos sons. O nome “processador dinâmico” não foi dado porque eles controlam a dinâmica, mas sim porque seu funcionamento muda de acordo com o sinal que os alimenta. Usá-los para controlar a variação de intensidade no fraseado musical, a meu ver, é um erro básico. As técnicas para administrar as variações de intensidade são a condução de volume ou o processamento dos áudios, aumentando ou diminuindo a intensidade nos trechos que queremos alterar.

 

A escolha dos trechos que vamos manipular depende de nosso entendimento do discurso musical. Vamos analisar alguns critérios.

Durante o discurso musical, existem pontos de partida, pontos de chegada, e os caminhos usados para sair e chegar até esses pontos. Quando o ponto de partida tem menos intensidade do que o ponto de chegada, dizemos que acontece um “crescendo”, e um “diminuendo” na situação inversa[1]. No primeiro caso, cada nota deve ser mais forte do que a nota anterior, e mais fraca do que a nota seguinte. No “diminuendo” acontece o contrário, cada som é mais fraco do que o anterior, e mais forte do que o seguinte. Podemos pensar em “contornos dinâmicos”, ou curvas que descrevam em linhas gerais como é construída essa variação de intensidade. Assim como na melodia, temos curvas em forma de rampa (indo do fraco ao forte, ou o contrário) e em forma de arco (do fraco ao forte e novamente ao fraco, ou o caminho inverso).

 

 

Contornos básicos de variação de intensidade:

 Essas são as linhas básicas do contorno, claro que as curvas podem ter “sinuosidades”, ou pequenas variações no caminho de um ponto a outro. Mas mesmo nesse caso, o percurso escolhido deve ficar claro. As técnicas de correção, seja pela condução de volume ou pelo processamento do áudio, visam corrigir incoerências de intensidade na execução do músico. Mas a condução de volume pode ser usada também para dar destaque a alguns pontos, fazendo com que a mixagem valorize as ideias musicais, e tornando a música mais atraente para quem a ouve. 

Existem algumas técnicas, no discurso musical, para deixar claro quais são os pontos que merecem ser observados com mais atenção, por serem os pontos de partida ou de chegada, ou até por serem “acentos” usados no meio da frase, como se fossem paisagens que paramos para admirar no meio de um caminho.

 

A primeira técnica é o acento dinâmico. Como o próprio nome diz, consiste em tocar uma nota com mais intensidade, intencionalmente. Isso pode ser para criar uma condução rítmica diferente, acentuando várias notas, ou então destacando uma única nota, para pontuar um ponto específico da frase musical. Em uma apresentação ao vivo, essas variações acontecem no calor do momento, mas em um disco esses acentos podem precisar de um ajuste fino, que os coloque na dimensão correta, no contexto em que todos os sons estão sendo alterados e manipulados. Quando a intenção é criar uma acentuação rítmica com um padrão repetido, às vezes é possível copiar o envelope de volume na primeira vez que o modelo acontece, e colá-lo nas repetições (principalmente quando a música foi gravada com metrônomo). Nos outros casos, não há como escapar da condução manual. Em alguns casos, pode ser necessário conduzir praticamente nota a nota. Claro que qualquer ferramenta deve ser usada com critério e bom gosto, e isso se aplica também às sugestões apresentadas aqui.

 

A segunda técnica é o acento agógico. A agógica está para o tempo assim como a dinâmica está para a intensidade. Quando variamos a intensidade, falamos de dinâmica. Quando a música acelera ou “rallenta” (palavra italiana para dizer “desacelera”), acontece uma variação agógica. O acento agógico destaca algumas notas fazendo com que sejam mais longas do que as notas que a cercam. Uma forma de valorizar emocionalmente essas notas mais longas é acentuar (ou criar, caso não tenham) uma dinâmica interna, ou seja, dar à nota um contorno próprio de variação de intensidade – afinal, uma nota longa sem variação se torna monótona, e perde sua intenção musical. Quando o músico faz isso intencionalmente, a mixagem pode valorizar sua intenção. Caso ele não tenha feito, a mixagem pode criá-la.

 

A terceira técnica para destacar pontos específicos de uma frase musical é o acento tônico. São as notas mais agudas ou mais graves da frase, que se destacam por estar em uma altura diferente das notas que as cercam (atenção: falamos de altura no sentido de serem mais agudas ou graves, não de intensidade). Esses pontos podem ser atingidos por notas consecutivas que levem até eles, ou então por salto. São pontos muito interessantes para pensar em conduções de volume que os valorizem. Esse tipo de detalhe faz com que a mixagem se torne muito mais atraente para o ouvinte.

 

A última técnica é o chamado acento rítmico. Ele acontece quando um trecho tocado por um instrumento tem uma atividade rítmica muito diferente do que acontece imediatamente antes e depois. Chama a atenção do ouvinte por mudar um padrão ou modelo de atividade rítmica. Esses pontos também podem ser valorizados na mixagem através da condução de volume, não só variando a intensidade do trecho como um todo, mas também criando dinâmicas internas que deem a ele mais destaque, tornando-o mais merecedor da atenção do ouvinte.

 

A mixagem não é só uma etapa em que os sons tocados pelos músicos são mostrados de forma fria e transparente. O grau de interação criativa do engenheiro de mixagem pode variar, mas saber identificar e valorizar pontos específicos da execução musical é uma habilidade que certamente agradará aos ouvintes, que são o público de seus principais clientes: os músicos. Que, aliás, também vão gostar se você puder ajudar para que sua performance fique mais interessante no resultado final.

No próximo texto vamos falar de alguns conceitos de fraseologia que também servem como referência para conduções de volume. Até lá.

 

 

[1] Em música, muitos dos termos usados vem do italiano. Por coincidência, “crescendo” é igual em italiano e português, mas “diminuendo” é diferente. No caso da música, o “sc" de “crescendo” é pronunciado com som de “x”, como em italiano.

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